Quarta, 26/11/2014  
HOME
Home
Projeto
    Apresentação
    Objetivos
    Justificativa
    Equipe
Pesquisa
Oficinas
Fotos
Vídeos
Festa de Terreiro
Agenda
Notícias
Imprensa
Contato
 
  Busca por notícias

22/12/2005
Professor Severino Vicente da Silva* divulga artigo sobre a cultura Popular da Zona da Mata de Pernambuco

Ciranda no Ponto de Cultura Estrela de Ouro

CULTURA PERNAMBUCANA NA ZONA DA MATA NORTE 

INTRODUÇÃO

O século XIX foi o momento da invenção das nações e dos Estados contemporâneos e também das tradições que passaram a significar os povos que se reconheciam. Também o Brasil se definia como Estado, e o seu povo criou tradições que o tornaram reconhecíveis a si mesmo e às demais nações. País continente, o Brasil foi se reconhecendo nas múltiplas tradições que o compõem: tradições trazidas pelos portugueses encontraram e fecundaram com as tradições dos primeiros habitantes e com as tradições dos povos africanos. Em Pernambuco, região de mais antiga ocupação européia foi o local de nascimento de muitas tradições, na dança, na música, no teatro popular, na poesia de cordel e, como não podia deixar de ser nas artes ditas maiores, como a literatura poética e prosaica, na pintura, na escultura.

Dos encontros culturais ocorridos em Pernambuco, chama atenção a dança do FREVO, OS MARACATUS, O CAVALO MARINHO, O COCO, A CIRANDA. O frevo foi inventado com o povo inventando o carnaval de rua da capital pernambucana. Na capital também surgiu o Maracatu Nação. Esse Maracatu nasceu do fecundo diálogo da tradição africana com a tradição católico-portuguesa das  Irmandades religiosas, especialmente da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Durante o período imperial, quando se tinha o hábito de promover a festa da coração do Rei do Congo sob a proteção das Irmandades, as comunidades negras saíam à rua em procissão. Com o fim do Império em 1889, quando ocorreu a separação do Estado com a Igreja, as festas tornaram-se o desfile das nações que saíam às ruas com os seus atabaques anunciando o Maracatu, com a corte real. Esse é o Maracatu de Baque Solto, próprio das comunidades de afros-descendentes que habitavam a capital, e se tornaram símbolo do seu carnaval ao lado da dança do Frevo.

MARACATU DE BAQUE SOLTO

Contudo, outra tradição nascia na região da Zona da Mata Norte, produtora de cana de açúcar, de engenhos onde trabalharam, primeiro como escravos e depois como homens livres, negros, índios que, junto a mestiços e a brancos pobres, foram criadores de novas expressões culturais, sendo o Maracatu de Baque Solto a mais eloqüente e popular dessas tradições.

O Maracatu de Baque Solto, também conhecido como Maracatu de Orquestra ou Maracatu Rural, é um misto de dança e de teatro que conta a saga dos homens e mulheres plantadores de cana de açúcar. Inicialmente eram homens que saiam isoladamente, vestidos de uma roupa de chita colorida, rostos escurecidos com carvão, cabeças cobertas com um chapéu em forma de funil, um chocalho preso às costas e uma lança na mão. Eram caboclos, assim chamavam os que viviam distante dos centros urbanos e que descendiam dos índios. Apareceram como testemunhas históricas do passado. Eram guerreiros que haviam perdido seus líderes. Inicialmente não eram aceitos nas comunidades e foram reprimidos. Com o tempo começaram a sair em conjunto lembrando uma tribo, com nomes que demonstravam a coragem, por isso são tantos os que se chamam de Leões,  ou tribos com o nome dos peixes que tiravam dos rios, como a Cabinda ou Piaba. Negociaram a sua sobrevivência e adotaram uma corte real. Seus caboclos foram se tornando mais atrativos, suas vestes mais coloridas, sem abandonar a Burrinha, o Caçador, o Mateus e sua companheira Catirina – também chamada de Catita – que saiam em busca de comida para a tribo que se desloca de um povoado a outro, de uma cidade a outra.

O Maracatu de Baque Solto, nascido dos canaviais das cidades da Zona da Mata Norte, especialmente Nazaré da Mata e Aliança, conquistaram a Capital e hoje já são vistos como uma das mais genuínas criações culturais de Pernambuco. Os Caboclos de Lança, com a sua dança guerreira são, hoje, os guardiões da cultura pernambucana.

O Maracatu Estrela de Ouro, foi criado pelo Mestre Severino Batista, mais conhecido como Mestre Batista, no ano de 1966. A sede do Estrela de Ouro é em Chã de Camará, um sítio na zona rural de Aliança. Nela funciona o Ponto de Cultura Estrela de Ouro.

CAVALO MARINHO

No século XIX, o cronista dos costumes do Recife, o Padre Carapuceiro, dizia ser o Bumba meu Boi um brinquedo sem enredo e distante da realidade. As idéias do padre Carapuceiro não permitiam que ele compreendesse a riqueza da criatividade do povo ao utilizar-se de um folguedo para contar a sua vida e as suas tribulações. O Cavalo Marinho é um auto de teatro popular que se manteve especialmente na zona da Mata Norte de Pernambuco e no Agreste da Paraíba.

Nesse brinquedo nós encontramos a permanência das tradições portuguesas, especialmente a do Boi Fingido, de autoria de Gil Vicente, ou da Nau Catarineta e das danças em louvor a São Gonçalo do Amarante, uma das primeiras devoções trazidas do outro lado do Atlântico.

Mário de Andrade aponta o Cavalo Marinho como uma dança popular dramática. Nessa manifestação da cultura popular encontram-se citações à diversas danças dramáticas portuguesas, bem como à religiosidade que se mistura com as contradições da vida que os trabalhadores enfrentam no seu dia a dia nos antigos engenhos e nas atuais condições de propriedade e na produção.

A criatividade popular soube transpor para a sua realidade os dramas vividos pelos vaqueiros de Gil Vicente para o seu cotidiano. As dificuldades para a realização de uma festa contra os interesses dos que desejam ver os mais pobres sempre trabalhando, não impede que o povo se divirta, zombando de suas próprias dificuldades, mas sem jamais perder a graça de louvar, com os Reis do Oriente, o nascimento daquele que trará a alegria, trazendo em alguns momentos a lembrança de um outro folguedo, o Reisado, já bastante esquecido em Pernambuco; também não se esquecem de louvar o São Gonçalo e os arcos que indicam esse reino e alegria, da mesma forma que o Boi que morre renasce para dar continuidade à vida. A dança é acompanhada por uma orquestra – um banco – formado por Ganzá, Rabeca, Pandeiro, Bage (reco-reco).

O Cavalo marinho foi o primeiro dos brinquedos populares organizados pelo Mestre Batista, no seu sítio de Chã de Camará.

COCO

A dança do Coco está presente em quase todo o espaço nordestino. É uma dança e um ritmo que mostra facilmente sua origem africana. Segundo alguns estudiosos ele teria surgido do hábito dos escravos cantarem enquanto faziam as tarefas, uma delas quebrar o fruto doa coqueiros, batendo pedra contra o coco. É provável que um deles tenha aproveitado os sons que faziam ao quebrar o coco e tenha começado a criar versos para aquela melodia que se formava. Posteriormente teriam simulado, com as mãos, o barulho que as pedras fazem ao bater no coco. Daí a ficarem em roda ritmando, com as mãos e os pés não deve ter demorado tanto. “Ir ao coco” passou a ser sinônimo de ir dançar, dançar ao som e ao ritmo que faziam ao quebrar os cocos.

Dos coqueirais aos terreiros dos sítios e das fazendas foi um percurso quase natural. Assim, também, a dança do coco alcançou as pontas de ruas quando se deu o processo de urbanização. Era uma dança dos mais pobres, uma dança que se fazia nas pontas de ruas e nas praias e foi, durante algum tempo, também reprimida, pois os padrões morais de então viam essa dança como lascívia e perigosa para as moças.

O coco quase sempre é dançado em roda, formada por homens e mulheres que ritmam co as mãos e os pés, dando umbigadas em seu companheiro do lado. No centro da Roda fica o Coquista, ou seja, aquele que improvisa versos que são repetidos por todos que estão na roda.

O Coco sempre foi muito dançado em toda a cidade de Aliança e, no Ponto de Cultura, ele é preservado pelo Coquista Biu do Coco, que continua a tradição de sua família.

CIRANDA

De mãos dadas, uma grande roda é formada por mulheres, homens, rapazes, moças e crianças. Enquanto movimentam o corpo, simulando o movimento das ondas do mar. Girando à direita, com os braços e pés em movimentos graciosos, todos ondulam os seus sonhos acompanhando as canções tiradas pelo Mestre que, quase sempre está no centro da roda ou lado. O Mestre Cirandeiro, também chamado de Puxador de Ciranda, é acompanhado por uma pequena orquestra que tem o ritmo marcado pelo zabumba e o tarol. Entretanto, é comum que esses instrumentos tenham a companhia de clarinete, trombone e piston. As pessoas repetem os versos do “puxador” da Ciranda.

Embora a dança da Ciranda seja bem própria para os casos de amor, o Mestre da Ciranda não deixa escapar nenhum tema aos seus versos improvisados: política, futebol e o dia a dia da comunidade não são esquecidos.

A maioria dos pesquisadores admite que a Ciranda tem sua origem em Portugal, nas danças das crianças. Mas todos também aceitam que foi observada no Brasil, especialmente na parte norte de Pernambuco, no município de Goiana, saindo dali para todo o nordeste.

A Ciranda tem um “dono”, aquele que contrata o cirandeiro para puxar a ciranda no terreiro, no espaço próximo a sua casa. Esse “dono” da Ciranda é, quase sempre um comerciante que, enquanto lucra do “comes e bebes”, arrecada o pagamento do  Mestre e sua orquestra que põe todos a cirandar.

*Severino Vicente da Silva é doutor em História, professor da UFPE e coordenador do Ponto de Cultura Estrela de Ouro. bnovadescoberta@terra.com.br



PATROCÍNIO:
APOIO:
PARCERIA:
 
Copyright © 2005, Ponto de Cultura Estrela de Ouro de Aliança. Todos os direitos reservados.
HOME